sábado, 29 de setembro de 2012

Titãs arte e ciência

Comida, diversão, arte, ciência, tecnologia e sociedade.

É interessante como a contraposição clássica entre arte e ciência, tão prezada e consolidada para muitos, esteja em processo de relativização. Ainda se acha estranho que o pensamento romântico de Goethe, homem de artes e de ciência, coloque a arte acima da ciência e defenda que a ciência por si é vazia.
Há mais de vinte anos os Titãs já falavam dessa questão, evidenciando em sua música o fato de que o mundo moderno, civilizado, tecnológico, desdobramento do Iluminismo racionalista, não era capaz de dar conta das insatisfações humanas.


Arte tecnológica, percepção da superficialidade da visão dicotômica Atualmente, isso é cada vez mais presente, vide o trabalho do DJ Daito Manabe, ao transformar o corpo do amigo Masaki Teruoka em uma bateria eletrônica através de estímulos elétricos.


Essa busca de uma interação entre arte e tecnologia não é nova, tanto que é espantoso que se continue a pensar que ciência e tecnologia não possuem relação com a arte.

No Brasil, temos o exemplo semelhante, já em 2005, do trabalho do moderninho querido dos descolados, Michel Melamed, com a sua peça "Regurgitofagia"


"A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte"


Essa presença da tecnologia na música não é recente, afinal, violinos, cravos, pianos, não deixam de ser equipamentos, instrumentos, etc. altamente complexos. Contudo, acho que o fato de serem instrumentos mecânicos/acústicos, os diferencia qualitativamente dos equipamentos eletrônicos, como os desenvolvidos por Theremin, e os sintetizadores que ganharam força na segunda metade do século XX, chegando aos samplers e pick-ups dos DJs.
Abaixo, uma apresentação de Theremin com um Theremin e seu som bizarro, etéreo e futurista, não à toa, presente na trilha musical de vários filmes de Ficção Científica dos anos 50 do século passado.



Esse filme brasileiro recente mostra um pouco como há no contexto da música techno (o nome do estilo não é casual) uma série de interfaces tecnológicas. As raves se caracterizam não apenas pelas drogas que continuamente lhes são atribuídas, mas também pelos efeitos de áudio, de iluminação, etc.



"A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade..."


sábado, 18 de agosto de 2012

Integrando a Educação, ou desintegrando-a?


http://www1.folha.uol.com.br/educacao/1138074-mec-vai-propor-a-fusao-de-disciplinas-do-ensino-medio.shtml

Fico pensando o seguinte, uma suposição:
Digamos que existam mil professores de História, mil de Geografia, mil de Filosofia e mil de Sociologia, mas que haja uma carência de mil para cada disciplina - haveriam duas mil turmas precisando de cada uma dessas matérias (lembrando que, na verdade, são mil turmas, só que todas com essas quatro matérias nas suas grades), o que significam oito mil turmas.
Com essa medida, em nome da interdisciplinaridade, colocaria-se os professores de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, ensinando Humanidades. Assim, resolve-se não só o problema da carga horária, como também o da falta de professor.
O que acontecerá, o "jeitinho" professor de História ensinando não só História, mas também Geografia, Filosofia e Sociologia, o mesmo ocorrendo com as outras matérias. Com exceção da Matemática, que ficou em uma área a parte.
De onde tirei essa ideia? Dessa frase da notícia:

"Outra vantagem, diz, é que os professores poderão se fixar em uma escola.
Um docente de física, em vez de ensinar a disciplina em três colégios, por exemplo, fará parte do grupo de ciências da natureza em uma única escola.
Ainda não está definida, porém, como será a distribuição dos docentes nas áreas."


Viram? Provavelmente se farão oficinas de capacitação, contratação de professores ou concessão de bolsas para a produção de material didático, e... pronto! Os professores estarão prontos para trabalhar de forma integrada!
O mais maneiro, é que tudo se resolve até o final do ano!!!

http://f.i.uol.com.br/folha/cotidiano/images/12228882.gif


O que isso dá a entender da visão do Governo:
1. Matemática é diferente das outras disciplinas, embora Galileu tenha dito que o universo está escrito em linguagem matemática. O que mostra a pertinência dessa disciplina nessa área, bem como justificaria sua inserção junto com Português, Língua estrangeira, já que é linguagem (ou em último caso, por mais estranho que pareça, com humanas, pois a Matemática é derivada da Filosofia) - é a visão do senso comum, legitimando uma visão racionalista, quantitativista.
2. Matemática é mais difícil do que as outras matérias, por isso, tem que ficar separada e ter uma carga maior. Duvido que os alunos que muitas vezes são bons e Matemática, e que têm resultados bem inferiores ou regulares em História, Geografia, Filosofia e Sociologia concordassem com isso (embora seja comum ver seus colegas comentando "poxa, vc é tão bom em Matemática, como pode ser ruim em História???")  - é a visão do senso comum, desvalorizando uma visão humanista, relativista.
3. Matemática é mais importante, por isso tem que ser diferenciada. Porém, as questões matemáticas são escritas em português, as questões de lógica evidenciam a importância da interpretação. Há questões matemáticas que derivam da Filosofia (um "a + b = c" é uma tradução matemática do "tese + antítese = síntese"). Muitos problemas matemáticos surgiram e/ou foram aplicados/legitimados em função de necessidades práticas, situações sociais, etc (como o desenvolvimento da estatística associado ao fortalecimento do Estado-nação, do processamento de dados ligado ao aumento da produção, etc.)  - é a visão do senso comum, limitada, pequena.
Cabe ressaltar que em nenhum momento estou desmerecendo a disciplina Matemática, tão importante quanto a minha e as demais, porém, as mudanças do Governo, ao invés de contribuírem para a quebra de preconceitos e problemas, parecem referendá-los.
A ideia de integração de disciplinas é interessante, eu mesmo sou favorável, porém, tudo parece mambembe, improvisado. Enquanto os países referência em educação possuem planos projetados para décadas, nós pensamos no curto prazo - o resultado ruim no Ideb (alguém esperava que fosse diferente?) motiva uma mudança radical sem maiores reflexões. Essa é uma pena, a nossa educação acaba dependendo de bons professores, de bons funcionários e de bons alunos, no mais, tudo é deixado ao sabor dos ventos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Daniel Crouch Rare Books

Um dia, durante uma conversa com meu colega Washington (professor de Desenho), ele me disse que os projetos (cidades, pontes, máquinas, etc.) eram mais interessantes anteriormente porque os responsáveis dominavam o desenho artístico, além do desenho técnico.

Comento isso porque acabo de tomar contato com o catálogo da Daniel Crouch Rare Books através desse vídeo, o qual serviu para me deixar com água na boca: http://vimeo.com/31740634

Ao visitar o site da DCRB (http://www.crouchrarebooks.com/) pude ver como o mundo era retratado nos mapas e desenhos antigos. Pode-se perceber não só a estética, mas também como a visão do espaço eram diferentes.

Ao comentar sobre o material disponível na Daniel Crouch, meu colega Pedro Paulo falou como seria interessante poder estudar cartografia, geografia, etc. através de uma análise da evolução dos mapas. Realmente, esse material nos permite viajar em outras formas de percepção do espaço. Para nossos olhos, alguns desses mapas são praticamente, a primeira vista, alienígenas, ilegíveis. Contudo, eles são um retrato de uma época e de uma visão de mundo - e do mundo.

Clicando-se nos catálogos, pode-se baixá-los e tomar contato com o material disponível na Daniel Crouch. É possível se ver  muita coisa diretamente no site, em fotos com alta resolução. Quanto aos catálogos, os produtos possuem um texto explicativo (tudo em inglês, infelizmente).

É interessante como nosso passado possui um preço, e pode ser comprado. Esse mapa geológico do Brasil, por exemplo:
http://www.crouchrarebooks.com/image-viewer/1205_1/

Ele custa trezentos e cinquenta libras. Algum interessado?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Judeus convertidos, os chamados "cristãos-novos".


A história da presença judaica no Brasil é importante e ainda pouco conhecida. Sabe-se que muitos, na tentativa de se escapar das perseguições, acabam por se converterem a fé cristã - embora muitos guardassem sua fé original, bem como seus costumes e práticas de forma privada.

Tem-se o costume, eu mesmo já fiz tal comentário, de se relacionar certos nomes à uma possível origem judaica. Estudos recentes, embora não inviabilizem a possibilidade dessa relação, mostram que ela é mais diversificada do que se imagina.

Segue abaixo a matéria sobre essa tradicional relação entre os chamados "marranos" (cristãos-novos) e certos nomes.
http://oglobo.globo.com/pais/o-mito-sobre-origem-de-sobrenomes-de-judeus-convertidos-5227424

Aqui também temos alguns dos sobrenomes mais comuns entre esses judeus convertidos
http://oglobo.globo.com/pais/os-sobrenomes-mais-usados-pelos-cristaos-novos-5227738.

Para quem pensa que essa questão é algo do passado e estranho à nossa realidade, basta lembrar das comunidades judaicas que proliferaram na periferia do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. Nesse último caso, podemos indicar uma referência rápida.
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/em-dia/os-judeus-da-baixada-fluminense

domingo, 5 de agosto de 2012

"Ciências" - Me Gusta discutir-las




Interessante pensar como Newton, Descartes, etc., tinham uma formação que integrava matemática, filosofia, história, etc. e foram fundamentais na constituição do saber matemático atual. É interessante como a constituição do paradigma cartesiano-newtoniano, que fundamentou uma concepção mecanicista do mundo, conseguiu apagar seus fundamentos humanísticos.

Embora as chamadas ciências exatas estejam longe da exatidão, como propalam, elas conseguiram se construir como tais - coisa que muitos físicos e químicos discordariam e estão abertos para pensar de modo mais filosófico e relativo suas questões (como os químicos já fizeram e como os físicos fazem hoje). Em função desse paradigma cartesiano-newtoniano, que acabou levando a uma valorização das ditas ciências exatas e a uma subsequente e progressiva visão das mesmas como sendo mais complexas do que as outras.

Isso acaba levando a um grau de importância maior dado a elas, o que faz com que as demais áreas venham a ser vistas como acessórios. Interessante pensar que, até o século XIX, principalmente na Alemanha, a formação de diferentes carreiras, tinham uma forte carga de humanidades, sem que fossem vistas como acessórias, mas sim como essenciais.

É claro que há enormes falhas nas áreas de humanas, fruto da sua subjetividade e do que é visto como defeito pelas autoproclamadas ciências exatas: o fato de serem subjetivas e de interferirem/sofrerem interferência do real concreto; coisa que também ocorre nas tradicionalmente conhecidas como "hard sciences" - o que ocorre é que, muitas vezes, o componente humano é disfarçado ou desaparece na história.

Assim vemos porque não há interesse em se mudar tal situação: se áreas como filosofia, história e sociologia se debruçam sobre as "ciências exatas", seus elementos filosóficos, seus processos históricos e sua estrutura sociológica serão revelados ou discutidos. O que isso significaria? Que são ciências com as mesmas qualidades e defeitos que as demais, logo nem melhores, nem piores.

Revelado isso, porque manter essa diferença, essa hegemonia, visível inclusive nas distribuições de carga horária? Essa pergunta, não se interessa fazer, só quem a faz são a filosofia, história e sociologia - por isso são tratadas como adereços.

Uma Ilha de História

Bom, esse blog é uma tentativa de se criar um espaço de divulgação científica nos campos da História (disciplina que leciono), Antropologia (área na qual me especializei), Psicologia (saber pelo qual me interesso pessoalmente) e Arquitetura, Pintura, Escultura e Música (campos pelo quais me interesso esteticamente).

Pode parecer estranho chamar um blog que cobre tantos universos ligados a arte como um blog de divulgação científica, porém, buscarei aqui escapar do senso comum, mostrando como só se pode compreender bem certas questões científico-acadêmias se as relacionarmos às diferentes dimensões da vida artística e cultural do seu tempo.

Sendo assim, escolhi como nome do blog um jogo de palavras com o título do livro do Marshal Sallins, "Ilhas de História". O título do livro de Sallins já era uma metáfora pois as "ilhas" eram o arquipélago do Havaí e ele buscava mostrar a historicidade desse local. Nesse blog, temos uma ilha de História cercada por um oceano de diferentes referências.

Por isso, escolhi como primeira imagem postada aqui, a de um moal da Ilha da Páscoa. Alguém, no meio de uma ilha, observando a imensidão ao seu redor. A História, por lidar com o tempo, é o fio condutor; afinal, tudo se passa no tempo e no espaço (o espaço deixo para os geógrafos).

Espero alcançar esse objetivo e propiciar notícias, comentários, discussões sobre essas diferentes áreas do conhecimento de forma leve, porém crítica. Brigas jamais, algumas discussões e debates sempre - é o que espero.